domingo, 11 de setembro de 2011

Eu - mamífera!

 Eu, cheia de dúvidas em relação ao comportamento de Laura, vasculho sobre o assunto na rede. Inúmeras opiniões de diferentes profissionais e mães. E lembro-me do início dessa minha caminhada chamada maternidade.
Helena tão pequena sofrendo com o diagnóstico de DRGE. Indicações de mantê-la, após as mamadas, ereta no colo por 30-40 minutos. Comentários de familiares e amigos sobre essa conduta torná-la manhosa, habituada ao colo, entre outras idéias do senso comum.
Eu desesperada, me formando mãe, navego na rede e contacto outras mães. Uma delas me responde com um argumento que intitulo como meu divisor de águas: “Nós somos os únicos mamíferos que afastamos os nossos filhotes. Geralmente, a fêmea acompanha seu filhote por 2 a 3 anos, em média, amamentando-o e ensinando-o as características de sua espécie, para com isso formar um filhote independente e seguro, física e emocionalmente. Você é uma MAMÍFERA!!!!”.
Depois dessa verdade, tento seguir meus instintos, mas confesso que as pressões externas e também internas, não me libertam totalmente. Ainda assim, venço preconceitos e assumo “comportamentos” como: cama compartilhada, acalanto com colo sempre que possível, evitando o estresse causado pelo choro. Acerto, erro, tenho tombos muito feios nesse meu processo de maternidade ativa e empoderamento do feminino perdido por nós mulheres.
Durante o repouso na gestação da Laura, além das preocupações em como lidar com o bebê, o assunto parto começa a invadir meus pensamentos. Pesquiso, assisto vídeos como esse aqui (aliás visto inúmeras vezes). Isso não ocorre na época do nascimento de Helena. A possibilidade de não poder gestar, de uma possível histerectomia e a felicidade de manter o útero após uma miomectomia extensa, não me faz questionar, pedir, insistir por um parto natural. A afirmação da médica sobre o risco de tal “procedimento” é aceita totalmente (hoje escrevo isso com profundo arrependimento e pesar). Helena nasce através de minha segunda cesárea, mas a Renata MÃE não consegue nascer nesse parto. Lembro-me da sensação de perda da identidade, pois dentre as muitas "Renatas", a única que precisava aparecer naquele momento ainda não tinha nascido. Talvez, se o parto natural tivesse acontecido, todo seu trabalho teria favorecido esse nascimento que na verdade, só ocorreu durante a amamentação.
Mas Laura está prestes a chegar e vem trazendo ventos de mudanças. Parto normal? Será que já posso? E os novos miomas? E as cicatrizes? E a possibilidade de ruptura uterina? Assisto a vídeos, leio sobre VBAC (vaginal birth after cesarian – parto vaginal após cesárea), peço um parto natural, mas não há jeito, minha médica mantém a afirmação sobre os riscos. Não procuro outras opiniões e por medo, vivo mais uma cesárea, a terceira da minha coleção.
É! Não vivencio um parto natural. Mas apesar disso, Laura nasce! Eu já sei ser mãe! A MAMÍFERA dentro de mim, liberta-se definitivamente com sua chegada. Vivo a maternidade ativa, assumo totalmente minhas escolhas: cama compartilhada, colo com sling, colo sem sling, peito em livre demanda, mamada noturna, amamentação prolongada, acalanto, ausência de palmadas, corujices, denguices, fofurices, chameguices... Assumo também o cansaço, que é grande, mas não se compara a felicidade de tê-las, de ter gestado os brotos que se transformam em flor e fruto.
Nessa caminhada, por vezes “caminhadura”, aprendi muito com as mães blogueiras. Vira e mexe, lá estou eu tentando aprender com as experiências delas. Descobri que nesse exercício de maternagem, partilhar experiências é fundamental. Dos muitos blogs e sites que visito, o blogmamiferas, tem sido um parceirão. Os passeios por lá me levam sempre a questionamentos e conhecimentos, muitas das vezes de mim mesma. Educar, brincar, maternar, sair do fluxo do senso comum, empoderar-se*, parir, parto, tudo isso rola por lá. Muito bom! Muitas dessas mulheres já nasceram mamíferas, outras passaram por processos curtos, moderados ou longos até tornarem-se uma delas. No meu caso, esse processo foi o meu parto! Um parto com contrações que expulsaram meus pré-conceitos e fizeram nascer um ser humano melhor. O parto que não vivi fisicamente, aconteceu na alma.  

“Empoderar-se é reconhecer que há uma força maior dentro de cada ser
Assumir a responsabilidade por quem se é e para onde se quer chegar
Aposentar de vez a culpabilidade pelas coisas não serem como gostaríamos
Segurar as rédeas dos cavalos selvagens e conduzí-los para uma direção

Empoderar-se é solitário

Dolorido, muitas vezes
A gente descobre o tanto que deixou a jangada seguir 
Atribuindo ao outro o fruto da vida.
Empoderar-se é escolher um novo caminho
com as 7 camadas rompidas ou o períneo mutilado.
Descobrir e honrar o movimento sagrado
num novo parto, no parto do outro.

Empoderar-se é destruir castelos de areia

Com ondas enormes de consciência
É tapar os ouvidos para a palpitaria
Fechar os olhos para aquilo que já se conhece
E ouvir o silêncio amorfo da esquecida voz da intuição.

Empoderar-se é assumir o poder interior

Abrir a vela do barco e reconhecer que o vento 
Sempre sopra para direção certa.
É ser o diretor das escolhas
E protagonista do estrelato
Nunca coadjuvante da história.

Empoderar-se é saber onde se quer chegar

E descobrir meios como fazê-lo
Mesmo e principalmente quando a maré puxa para lado oposto.

Empoderar-se é saber que cada passo é uma grande viagem

Crer em si, em seu corpo perfeito, nos processos naturais
e fazer do nascer e maternar a grande revolução humana.”
(Kalu Brum)

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